quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Oração Subordinada Agente da Passiva e a NGB

1. INTRODUÇÃO

Geralmente, os falantes da língua portuguesa têm dúvidas quando tentam falar ou escrever segundo os padrões da norma culta. Quando falam sobre as vozes verbais e sobre as regras que giram em torno do tema, percebem que ainda há muito que conhecer sobre as construções ativa, passiva e reflexiva, as três vozes verbais reconhecidas pela Nomenclatura Gramatical Brasileira – NGB.

Engana-se quem acha que as vozes verbais são equivalentes. Por que haveria tantas possibilidades de construção de uma ação verbal se todas transmitissem a mesma idéia? O conhecimento das minúcias da língua portuguesa faz com que tenhamos maior precisão quando queremos nos comunicar. Nossa língua possui estruturas complexas, mas é prazeroso analisar e tentar compreender as inúmeras possibilidades de expressão que ela oferece.

Estudar estas e outras construções gramaticais faz com que o falante exercite seu raciocínio, formule e teste hipóteses, aumente sua capacidade de observação e seu poder de argumentação, ou seja, é um auxílio para o exercício da cidadania e da individualidade.

Procuramos, através deste trabalho, discorrer sobre as vozes verbais; o resquício da voz medial; a equivalência relativa entre as vozes verbais; a diferença entre voz passiva e passividade; as funções sintáticas que fazem parte das construções passivas e os elementos contemplados ou não pela NGB.

O agente da passiva, por ser uma função significante nas construções passivas, por algumas vezes será mencionado e discutido. Essa discussão terá seu clímax quando falarmos sobre a polêmica oração subordinada agente da passiva, reconhecida por uns e ignorada por outros. Ao término deste trabalho, apresentaremos o posicionamento de alguns autores sobre a classificação da subordinada agente da passiva.

2. VOZES VERBAIS

O emprego das vozes ativa, passiva e reflexiva não acontece aleatoriamente. Dependendo da necessidade, há motivos que impõem a utilização de uma construção e não de outra. É necessário que saibamos o que queremos realmente dizer antes de optarmos por uma ou por outra possibilidade. Suponhamos que um professor, com o intuito de despertar o interesse de seus alunos pela leitura, resolva comprar livros para presentear os mais aplicados. Os alunos mal podem esperar pelos presentes e conversando sobre o assunto, um deles pode dizer:

1. O professor comprou os livros.
2. Os livros foram comprados pelo professor.
3. Compraram os livros.
4. Compraram-se os livros.

As construções que explicam o ato de comprar os livros são semelhantes, mas não equivalentes. Na primeira, a atenção é voltada para o agente da ação verbal. Na segunda, o agente aparece em segundo plano e o objeto tem destaque. Na terceira possibilidade, as atenções são voltadas para o ato de comprar. O sujeito é indeterminado e sua ausência reforça a carga semântica do verbo. Por último, temos uma relação imprecisa entre o sujeito, o verbo e o objeto. Construções como essa quarta podem ter duas significações. Poderíamos entendê-la como reflexiva, fato que não acontece com o verbo comprar, que demanda uma entidade humana, ou poderíamos entender que os livros foram comprados por alguém, portanto, significação passiva.

O latim, língua da qual o português tem sua origem, possui três formas verbais de conjugação: a ativa, a passiva[1] e a depoente. A forma depoente, resquício da voz média, é uma característica do latim e se configura pelo uso da forma verbal na voz passiva com o significado ativo. Os verbos depoentes, que podem ser intransitivos, transitivos diretos ou transitivos indiretos, são empregados em ações que não são predominantemente de responsabilidade do indivíduo. Nesses casos, pode-se protagonizar, mas não ser soberano. Há um forte condicionamento por fatores que vão além dos limites do eu e sua vontade de ação.

A forma depoente dos verbos latinos é freqüentemente rica em sugestões filosóficas. Fazem parte deste grupo verbos como nascor(nasço), opinor(penso), polliceor(prometo) e morior(morro). Utilizando esse conceito, o verbo nascer do português não deveria ser considerado ativo tampouco passivo. Com certeza, os indivíduos nascem, porém não podem exercer essa ação de modo totalmente ativo e independente. O comportamento de determinados verbos os enquadraria na voz média, que possui, ao mesmo tempo, característica ativa e passiva. Na tentativa de suprir a lacuna da voz média, o português torna reflexivos verbos como esquecer: Eu me esqueci.

A NGB contempla três vozes verbais que indicam a relação do sujeito com a ação verbal. São elas: ativa, passiva e reflexiva. Esta seria um dos aspectos da voz medial, que emprega a forma ativa do verbo conjugado com pronome átono da mesma pessoa do sujeito. Além do aspecto reflexivo, a voz medial possui o aspecto recíproco e o dinâmico.

Diferentemente do que ocorre no latim, em português não existe flexão própria para a voz verbal. Estabelece-se a voz por meio de locução verbal ou com auxílio do se. O domínio das estruturas de vozes verbais permite que o usuário de nossa língua tenha flexibilidade de construção ao transmitir uma mensagem, conforme os exemplos a seguir.

1. O menino bebeu água.
2. A água foi bebida pelo menino.
3. Bebeu-se água.
4. O menino se machucou.

No primeiro exemplo, o menino é o agente da ação verbal. Em orações na voz ativa, o sujeito tem maior expressividade e o verbo concorda com ele. No segundo exemplo, tem-se uma oração na voz passiva analítica. A água – objeto direto da voz ativa – é o sujeito paciente e a locução verbal, formadora da voz passiva analítica concorda com ela. No terceiro caso, tem-se um exemplo de voz passiva sintética. Ao verbo transitivo direto na terceira pessoa se junta a partícula apassivadora se. O quarto caso é um exemplo de voz reflexiva. Neste caso, se é um pronome reflexivo que indica ação praticada e sofrida por o menino. A seguir, serão apresentadas as particularidades de cada uma das vozes verbais.

2.1 VOZ ATIVA
Esta é a construção mais básica ou primária para a representação da relação sujeito/verbo. Todo verbo usado nos diversos tempos e modos da conjugação simples estão na voz ativa. Quando uma oração se encontra na voz ativa, o verbo, que deve ser de ação, deixa evidente a ação do sujeito. Este, por sua vez, deve ser animado ou dotado de força, de movimento.

Para transformar uma oração ativa em passiva, o sujeito passará a agente da voz passiva, o objeto direto passará a ser o sujeito da voz passiva, o verbo ser deverá assumir o mesmo tempo e modo do verbo transitivo direto na voz ativa e o verbo transitivo será substituído por seu particípio. É oportuno lembrar que nem todas as construções ativas possuem uma correspondente passiva. Há construções passivas que não são aceitas, ainda que a forma ativa possua um verbo transitivo direto. Essa rejeição é comum com os verbos ter, poder, querer, por exemplo. Veja que a oração ativa Tive uma dor de dente não possui como correspondente passiva Uma dor de dente foi tida por mim.

2.2 VOZ PASSIVA

O sujeito dos verbos transitivos diretos pode ser considerado ponto de onde parte a ação verbal e ponto para o qual a ação aponta. Sobre o verbo desta última ação dizemos que está na voz passiva[2]. Esta voz é formada com o verbo ser, conjugado em todas as formas, seguido de particípio passado – deve-se observar a concordância de gênero – do verbo que se quer apassivar ou com o verbo transitivo direto na terceira pessoa mais se.

Forma-se o predicado passivo de três maneiras: na primeira, com um dos verbos auxiliares ser – de ação –, estar – de estado – ou ficar – de mudança de estado –, seguido do particípio passado do verbo que será apassivado. Ex.: Os cartagineses foram vencidos pelos romanos. / A fortaleza será cercada pelos inimigos. / O prédio ficou destruído pelas chamas. Na segunda, com verbo transitivo acompanhado das partículas apassivadoras me, te, se, nos e vos. Ex.: Batizei-me nesta igreja. / Tu, te chamas Lourdes. / Construíram-se dois apartamentos. Na terceira, com um verbo no infinitivo de forma ativa, porém, com sentido passivo. Ex.: O imperador deu a mão a beijar, e saiu. (a beijar = para ser beijada.) / Os sertanejos levaram-no a enterrar (a enterrar = para ser enterrado).

Nas construções passivas, o sujeito paciente, que é o objeto direto da construção ativa, recebe a ação verbal. Gramaticalmente, só é possível criar uma construção passiva a partir de um verbo transitivo direto
[3]. Entretanto, não podemos deixar de lado a transformação natural que a transitividade dos verbos sofre. O uso da passiva com alguns verbos transitivos indiretos se encontra generalizado. Frases como O jogo foi assistido por mais de mil pessoas e As regras devem ser obedecidas pelos membros do grupo são construídas comumente pelos falantes.

A voz passiva ou a voz reflexiva com valor passivo são comumente usadas em redações oficiais. Essas construções dão à linguagem um caráter impessoal, nas quais os atos são mais significativos que os agentes. A Constituição Federal, no Art. 40 § 4º, assegura: Os proventos da aposentadoria serão revistos, na mesma proporção e na mesma data, sempre que se modificar a remuneração dos servidores em atividade. Não importa quem fará a revisão dos proventos, tampouco quem modificará a remuneração dos servidores ativos. Não se tem a intenção de evidenciar pessoa específica, o que importa é o ato.

2.2.1 Passiva analítica

Caracteriza-se, em nível sintático-semântico, por ter o paciente da ação verbal na função de sujeito e, em nível morfossintático, por construir-se como uma locução verbal formada, geralmente, pelo verbo auxiliar ser e pelo particípio do verbo principal, que deve concordar com o sujeito passivo. Faz parte dessa caracterização a implicação de que somente verbos transitivos diretos admitem a forma passiva. Toda oração passiva possui uma correspondente na voz. Nesse tipo de construção, ocorre a tematização do objeto.

Também é possível transformar uma oração passiva analítica em sintética. Esta última define-se pela ocorrência do clítico se junto a verbos transitivos diretos acompanhados de um sintagma nominal com valor semântico de paciente da ação verbal. Tal sintagma nominal é o que seria normalmente considerado o objeto direto de tais verbos.

É importante lembrar que o agente da ação – sujeito da voz ativa – pode ser omitido na construção passiva analítica, dependendo de seu grau de importância para compreensão e do contexto. A supressão do agente da passiva ocorre, geralmente, quando o sujeito da forma ativa é indefinido. Em Alguém quebrou o copo, o pronome indefinido na função de sujeito impede que saibamos quem quebrou o copo. Na frase O copo foi quebrado por alguém, o pronome indefinido na função de agente da passiva também impede que saibamos quem praticou a ação de quebrar. Neste caso, o agente da passiva por alguém pode ser omitido, visto que não alterará a compreensão da frase.

2.2.2 Passiva sintética

Esta construção, que também é conhecida como pronominal, é formada por verbo transitivo direto na terceira pessoa – concordando em número com o sujeito paciente –, pronome se e sujeito paciente. Na voz passiva sintética, ocorre a tematização do processo. Por exemplo, em Vendem-se flores, a ação de vender fica em evidência e seu agente nem é mencionado.

A voz passiva sintética, por vezes, é confundida com o processo de indeterminação do sujeito, que pode utilizar verbos na terceira pessoa e a partícula se. Entretanto, esta construção aceita verbos intransitivos, enquanto a voz passiva sintética não. Na frase Gosta-se de futebol, temos um exemplo de indeterminação do sujeito. O verbo gostar é transitivo indireto, logo, gramaticalmente, não é possível formar voz ativa. Na voz ativa, as estruturas são semelhantes. Comparemos Alguém vende flores com Alguém gosta de futebol.

Considerando a gramática descritiva, seria aceitável que o falante, por vontade própria, queira indeterminar o sujeito que vende flores. Assim, poderíamos ter a construção Vende-se flores se não existisse a imposição da gramática normativa, que diz que o verbo precisa estar no plural, concordando com flores.

2.3 VOZ MEDIAL

Esta voz, que também é conhecida como média, representa uma categoria flexional das línguas clássicas indo-européias com a função de expressar estados de coisas que afetam o sujeito do verbo ou seus interesses. É uma forma intermediária entre a voz ativa e a passiva, na qual ser o sujeito, ao mesmo tempo, centro e ator do evento é condição para a construção de voz média nas línguas clássicas. Esta voz pode apresentar características de reflexividade, reciprocidade ou dinamismo e sua construção pode acontecer com verbos transitivos ou intransitivos.

2.3.1 Reflexiva e recíproca

Das três ocorrências da voz medial, apenas esta é reconhecida pela NGB. Os verbos se conjugam como na voz ativa, acompanhados dos pronomes oblíquos antepostos ou pospostos[4] às formas verbais de cada pessoa. O pronome oblíquo serve de objeto direto ou indireto e representa a mesma pessoa do sujeito. Os brasileiros preferem usar a próclise, os portugueses, a ênclise. Exemplo: eu me ajoelho / ajoelho-me.

Na construção reflexiva, o sujeito aparece como agente e paciente de uma ação verbal que recai sobre si. Em O açougueiro feriu-se, percebe-se que o sujeito feriu alguém e foi ferido ao mesmo tempo. O açougueiro é o autor e a vítima de um ato que ele mesmo cometeu.

O pronome reflexivo pode exercer funções diferentes. Serve, geralmente, aos verbos intransitivos e, às vezes, aos transitivos. Os pronomes nos, vos e se são usados em construções que denotam reciprocidade como nas que denotam reflexidade. Às vezes, isso é motivo de confusão. Em frases do tipo Os alunos se amam, é possível que haja certa ambigüidade. Os alunos amam uns aos outros ou cada um ama a si próprio?! Para resolver o problema, acrescentamos à frase esclarecimentos, como nos exemplos: amamo-nos a nós próprios e amamo-nos uns aos outros. A primeira frase indica reflexividade, a segunda, reciprocidade. Nesta construção, a mesma ação é praticada por mais de um elemento, na qual um pratica a ação sobre o outro ao mesmo tempo.

2.3.2 Dinâmica

Na dinâmica, a pessoa do sujeito, sob a forma do pronome clítico, reaparece no predicado como o centro de um estado de coisas que parte dele, mas que não sai de seu âmbito, eliminando-se, assim, o objeto sobre o qual ela recairia num típico evento transitivo. Exemplo: O menino cortou-se no caco de vidro. O ato de cortar não partiu do menino. Com esta construção, queremos deixar claro que o menino se cortou. Dentre os verbos que nos passam a mesma idéia, temos molhar-se, sujar-se, afogar-se, machucar-se e ferir-se, por exemplo.


2.4 VOZ PASSIVA versus PASSIVIDADE

A diferenciação entre voz passiva e passividade não é um tema de fácil compreensão. O assunto é pouco tratado nas gramáticas tradicionais e, por isso, estudantes têm a tendência de achar que as duas nomenclaturas dão conta do mesmo fenômeno.

Como se viu no capítulo anterior, a voz passiva é uma construção na qual o sujeito paciente – algo ou alguém – recebe a ação verbal praticada por um sujeito agente, que quando explícito é denominado agente da passiva e há uma construção especial que indica isso. No entanto, a passividade pode ser interpretada de duas maneiras: na primeira, passividade é o fato de a pessoa receber a ação verbal.[5] Na segunda, passividade é uma característica interna de alguns verbos na voz ativa que tem significado passivo.

Em frases do tipo O papel foi queimado pelo fósforo, temos um exemplo de passividade no sentido de o papel ter sofrido a ação de queimar. Já em frases do tipo O policial levou um tiro, temos o policial como sujeito do verbo levar, na acepção de receber, com característica passiva. Não deveríamos dizer que o sujeito praticou a ação de levar um tiro, mas que ele experimentou o ato de levar um tiro. Vários outros verbos possuem esta mesma característica, podemos destacar os verbos morrer, sofrer, padecer, adoecer, envelhecer. Nestes verbos, não há atividade da parte do sujeito. São verbos intransitivos que, mesmo na forma ativa, se assemelham dos transitivos passivos quanto à significação.

Com o auxílio dos pronomes, certos verbos demonstram que o sujeito pode provocar em si, motivado por causas externas, a mesma sensação que provocaria em outros seres. Na frase A professora aborreceu-se com a surpresa dos alunos, compreendemos que a professora ficou aborrecida. Ela usou a capacidade que tem de aborrecer alguém sobre si mesma. Também podemos analisar a mesma frase sob um segundo aspecto. Essa construção tem um misto de reflexividade e de passividade, visto que ninguém se aborrece porque quer. No exemplo, os alunos motivaram o aborrecimento da professora. O verbo está conjugado na voz ativa, mas a ação de se aborrecer não partiu do sujeito. Temos nessa frase um exemplo de passividade.

É comum encontramos a idéia de passividade em verbos que representam estados da alma e em verbos ativos no infinitivo, funcionando como complemento nominal de adjetivos. Ex.: O escravo sofre o jugo da maldade. / Lição difícil de entender = Lição difícil de ser entendida. Também tem força passiva as locuções verbais antecedidas de para, por e a. Ex.: Este bolo é para comer = Este bolo é para ser comido.

2.5 A NOMENCLATURA GRAMATICAL BRASILEIRA

A NGB foi criada pelo Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado, pela Portaria n° 152, de 24 de abril de 1957, publicada no Diário Oficial de 30/04/1957, pág. 10.838. Foi publicada em 1959 com o intuito de simplificar e uniformizar a nomenclatura gramatical brasileira. Filólogos e lingüistas de todo o país contribuíram para a formulação da Portaria nº. 36, de 28 de janeiro de 1959, que facilitaria o ensino programático da Língua Portuguesa e as atividades de verificação do aprendizado, nos estabelecimentos de ensino em todo o território nacional. Na época da criação NGB, havia uma confusão de nomenclaturas para os mesmos fenômenos da língua. Os nomes variavam entre as diferentes regiões e instituições de ensino, dificultando o aprendizado e os métodos de avaliação.

É importante frisar que muitos autores ainda criam nomenclatura fora do contexto da NGB.

O texto da Nomenclatura Gramatical Brasileira, após mais de 40 anos de elaboração, continua oficialmente em vigor e é citado em nossas gramáticas com constância, mesmo que para acrescentar-lhe algo que não tenha sido considerado pela Comissão que o propôs. (HENRIQUES, Cláudio Cezar. CLP, 21).

3. ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA AGENTE DA PASSIVA

Uma oração é subordinada substantiva quando exerce função sintática de sujeito, predicado – termos essenciais –, complemento nominal, objeto direto, objeto indireto, agente da passiva – termos integrantes – adjunto adnominal, adjunto adverbial, aposto ou vocativo – termos acessórios – de outra oração, que alguns gramáticos chamam principal.

As orações subordinadas podem ser substantivas, adjetivas ou adverbiais. São substantivas quando desempenham a função de um substantivo, adjetivas quando a função é de um adjetivo e, por fim, são adverbiais quando a função se assemelha a um advérbio.

As funções próprias do substantivo são: sujeito, predicado, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, aposto e agente da passiva[6]. Vemos, a seguir, como essas orações se apresentam em um período.

1. É impossível que ele viva aqui. Esta é uma oração substantiva subjetiva, porque exerce função de sujeito da oração principal.

2. A verdade é que a família não lhe quer mais. Esta é uma oração substantiva predicativa, porque exerce função de predicado da oração principal.

3. Eu não quero que você se preocupe. Esta é uma oração substantiva objetiva direta, porque exerce função de objeto direto da oração principal.

4. O padre exortava o povo a que se mantivesse fiel à religião. Esta é uma oração substantiva objetiva indireta, porque exerce função de objeto indireto da oração principal.

5. Tive certeza de que meu time venceria. Esta é uma oração substantiva completiva nominal, porque exerce função de complemento nominal da oração principal.

6. Peço uma coisa a Deus: que nosso estado tenha paz em 2007. Esta é uma oração substantiva apositiva, porque exerce função de aposto da oração principal.

7. Este cargo é exercido por quem demonstra competência. Esta é uma oração substantiva agente da passiva, porque exerce função de agente da passiva[7] da oração principal.

Seria natural que existissem todas essas possibilidades de orações subordinadas substantivas, entretanto há alguns gramáticos que não classificam a subordinada agente da passiva como uma subordinada. Alguns a consideram como substantiva, outros, como adverbial. A NGB, por sua vez, não reconhece a existência de oração subordinada substantiva agente da passiva. Dentre os possíveis motivos[8] para tal omissão, destacaremos dois. Primeiro, a NGB não faz menção às orações justapostas. Segundo, existe um desacordo em relação à classificação dessa estrutura. Alguns gramáticos a consideram como substantiva, outros como adjetiva ou adverbial.

4. O QUE OS AUTORES FALAM SOBRE A ORAÇÃO AGENTE DA PASSIVA

Ainda nos dias atuais, existem divergências entre os gramáticos em relação aos fenômenos da língua. A subordinada substantiva agente da passiva figura entre esse desacordo de opiniões. Há autores que sequer a mencionam. Uns são contra, outros a favor. Vejamos o que dizem alguns.

A subordinada agente da passiva não pode ser introduzida pela conjunção integrante que, conforme as demais subordinadas substantivas. O esquema estrutural é passiva analítica + por quem ou por quantos. Raramente, usa-se a preposição de. Ex.: É estimado de quantos o conhecem.

Nova gramática do português contemporâneo
Celso Cunha e Lindley Cintra, também classificam como substantiva a oração agente da passiva. Os autores observam que esse tipo de oração é iniciada por pronomes indefinidos (quem, quantos, qualquer, etc.) precedidos de uma das preposições por ou de.

Lições de português pela análise sintática
Evanildo Bechara considera a oração agente da passiva como uma subordinada adverbial justaposta porque essa oração não se liga a sua principal por meio de conectivo.
[9]

Gramática da língua portuguesa
Walmiro Macedo, em sua gramática, diz “há quem prefira incluir a oração de agente da passiva no grupo das adverbiais. (...) Ora, se a oração que funciona como sujeito da ativa é considerada substantiva, porque é que não seria também a de agente da passiva?” Se transformarmos a oração passiva Este cargo é exercido por quem demonstra competência em ativa, teremos Quem demonstra competência exerce este cargo. Como acontece na transição da voz passiva para a ativa, o que era agente da passiva torna-se sujeito da ativa.

Novas lições de análise sintática
Adriano da Gama Cury também reconhece a existência da subordinada substantiva agente da passiva. Entende que são orações justapostas, sem conjunção, introduzidas por pronome indefinido regido de por ou de.

Sintaxe portuguesa para linguagem culta contemporânea
Cláudio Cezar Henriques reconhece a agente da passiva como uma oração substantiva. Este autor demonstra que a oração agente da passiva pode ser substituída por este, da mesma forma que as demais substantivas podem ser substituídas por isto. Ex.: Eles só serão respeitados por quantos valorizem o bom profissional. / Eles só serão respeitados por este. Observa-se que o pronome este poderia ser substituído por um ser animado.

Gramática aplicada da língua portuguesa
Manoel Ribeiro diz que podemos enquadrar como substantiva a oração agente da passiva, fazendo a ressalva de que há quem classifique adverbial.

A estrutura morfo-sintática do português
José Rebouças Macambira chama a oração que desempenha o papel de agente da passiva de substantiva agentiva.

Gramática normativa da língua portuguesa
Nesta obra, Rocha Lima inclui a oração agente da passiva no grupo das subordinadas adjetivas. Ex.: Morreu cego o famoso Afonso Domingues,/ por quem foi construído o Mosteiro da Batalha.

5. CONCLUSÃO

Através desta pesquisa, entendemos que se faz necessário recorrer ao auxílio das gramáticas para compreensão das vozes verbais e de suas respectivas estruturas, visto que algumas delas se mostram artificiais para os tempos modernos.

Vimos que a língua se transforma ao longo do tempo, por isso, a transitividade de alguns verbos pode mudar. Isto pode ser comprovado com o verbo assistir, que, segundo a gramática normativa, é transitivo indireto e hoje pode ser encontrado em construções passivas. A força do uso criou uma nova transitividade para o verbo em questão, transformando-o em transitivo direto.

Vimos também que não existe equivalência absoluta entre as vozes ativa e passiva. O emprego de uma delas está relacionado ao grau visibilidade do sujeito, do objeto ou do verbo que o usuário da língua deseja destacar.

A maioria das obras consultadas aceita a oração agente da passiva como uma subordinada substantiva. Apenas duas das obras consultadas discordam disso. Uma delas vê a oração como adverbial, a outra como adjetiva justaposta.

Concluímos que a NGB não descreve adequadamente a estrutura da língua portuguesa falada no Brasil, deixa de lado alguns fenômenos importantes e não dá explicação ou exemplo dos termos citados. Ela é aceita como doutrina oficial, mas boa parte dos gramáticos questiona seu conteúdo e sugere reformulações.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALI, Manuel Said. Gramática histórica da língua portuguesa. 8ª ed. São Paulo: Editora Universidade de Brasília, 2001.

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. 29ª ed. São Paulo:Editora Saraiva. 2000.

______. Gramática metódica da língua portuguesa. 24ª ed. São Paulo: Saraiva. 1973.
BECHARA. Evanildo. Lições de português pela análise sintática. 14ªed. Rio de Janeiro: Padrão, 1988.

BEARZOTI F°, Paulo. Sintaxe de colocação. 4 ed. Atual editora.

Cadernos de língua portuguesa do Instituto de Letras da UERJ. Ano III, vol.1, n° 4, Reedição ampliada, 2003.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

HENRIQUES, Cláudio Cezar. Sintaxe portuguesa para a linguagem culta contemporânea. 2ª ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.

KOCH, Ingedore Vilhaça; SILVA, Maria Cecília P. de Souza. Lingüística aplicada ao português: Sintaxe. 5ª ed. São Paulo: Cortez. 1993.

KURY, Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática. São Paulo: Ática, 1986.

LAPA, Manoel Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. 11ª ed. São Paulo: Martins Fontes Editora. 1982
MACAMBIRA, José Rebouças. A estrutura morfo-sintática do português. 6ª ed. São Paulo: Livraria Pioneira. 1990.

MACEDO, Walmiro. Gramática da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Presença. 1991.

PERINI, Mário. Gramática Descritiva do Português. São Paulo: Ática, 1995

RIBEIRO, Manoel Pinto. Gramática aplicada do língua portuguesa. 13ª ed. Rio de Janeiro: Metáfora Ed., 2003.

ROCHA LIMA, Carlos Henrique. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

[1] A transformação da voz ativa em passiva dá-se com a troca da desinência número-pessoal ativa pela desinência número-pessoal passiva. Neste caso, a desinência número-pessoal passiva de primeira pessoa do singular é –r. Por exemplo: amo(eu amo), amor(eu sou amado).
[2] A palavra passivo prende-se à mesma raiz latina de paixão (passio, passionis) ambas têm relação com sofrer, padecer. (ALMEIDA, GMLP)É importante observar que verbos passivos não possuem imperativo.
[3] Em latim não havia essa regra. A voz passiva também se usava com verbos intransitivos.
[4] Não se deve antepor o pronome reflexivo às formas verbais no imperativo afirmativo. Tampouco, pospô-lo às formas verbais no pretérito perfeito, no futuro simples, no futuro composto e no imperativo negativo.
[5] Cf. BECHARA, Evanildo. MGP, 105.
[6] Rocha Lima não apresenta o agente da passiva entre as demais funções desempenhadas pelo sujeito. (Cf. GNLP 35ª pág. 262)
[7] Como vimos no exemplo, o agente da passiva é antecedido, normalmente, pela preposição por e, raramente, de. No latim, ele é declinado no caso ablativo e antecedido das preposições a ou ab se for um ser animado ou considerado como tal ou sem preposição se for um ser inanimado. Usa-se a diante palavra iniciada por consoante e ab antes de palavra iniciada por vogal.
[8] Cf. HENRIQUES, Cláudio Cezar. SPLCC, 108
[9] Cf. BECHARA, Evanildo. LPAS, 143

Um comentário:

elmis.v4@hotmail.com disse...

caraboum adorei é otmo aprender cada vez mas parabéns up