terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

La felicidad no llegó, siempre estuvo acá

Ayer por la mañana me desperté a toda prisa. Me dijeron que ella estaría cerca de la vecindad en que vivo. Rápidamente salí de la cama, tomé el desayuno y lavé los dientes. No peiné los pelos porque casi no los tengo, soy calvo hace unos diez años. Vestí la ropa y cogí lo necesario para un encuentro con la tan soñada Felicidad.

Caminé para acostumbrarme con la nueva realidad. Puse las gafas para verla distante, pero aún no la conocía bien. Después de mucho procurarla, llegué al hogar especificado. Pensaba que la encontraría, pero no estaba allá también. Volví a la casa y me puse a dormir para olvidar de la desaparición de la Felicidad por los caminos de la vida.

Hoy sé que la felicidad no está cerca de mi vecindad, ni cerca de mí, pero dentro de mi corazón. Ella no llegará mañana o en el año que viene. Ella está a nuestra disposición en el día de hoy. Mañana, otra vendrá y así sucesivamente. Cada día tiene su proprio mal o bien.

Post Scriptum: Hace tiempo que no escribo en Español, por eso ya les pido perdón por los posibles errores.

Do medo do erro à adequação vocabular

Certa vez um professor de português foi assaltado no centro do Rio e, para pedir socorro, gritou: “Peguem-no, peguem-no!”. Como nenhum dos populares sabia quem era “no”, o ladrão fugiu e sumiu no meio da multidão... Isso ilustra como o apego à norma culta pode criar ruído na comunicação. Quando alguém ensina ou aprende algo, o objetivo é atingir um padrão de excelência a que comumente se chama “o certo”. Entretanto, quando se trata de ensino-aprendizagem de uma língua, devem-se considerar as diversas situações de interação das quais o aluno faz parte.

O ensino tradicional de língua portuguesa privilegia a modalidade culta em detrimento dos demais níveis de fala. Nesse contexto, passa-se ao aluno a ilusão de que se deve escrever e falar o “bom português” em todas as relações sociais. Todavia, o português exigido é o de Camões e de Machado, cujos textos figuram em gramáticas que se dizem contemporâneas, não se sabe de quem. Por isso, o padrão erro/acerto deveria ser substituído pelo adequado/inadequado em um ensino que se proponha contextualizado.

Há alunos que dizem não gostar de escrever. Apesar disso, escreve em sites de relacionamento, deixa comentários em blogs de amigos ou tem um diário guardado. É função do professor interpretar essas informações e perceber que alguém com esse perfil gosta de escrever, mas tem medo do rigor gramatical. Deve-se cuidar para que o medo do erro não bloqueie a criatividade do aluno que precisa se expressar. Desse modo, um ensino mais atrativo deveria considerar os textos do interesse do educando, para que, depois, discutam-se os contextos sociais mais adequados.

Um parente do governador não deveria chamar Sua Excelência de Serginho no lugar de trabalho. Por outro lado, em uma festa de família, chamá-lo de Excelência soaria deboche ou ironia. Tanto o diminutivo que expressa afetividade quanto o pronome de tratamento formal fazem parte da gramática, mas não se deve esquecer o contexto e a intenção. Fala e escreve bem aquele que, de forma mais precisa, adapta seu discurso ao contexto.

Dificilmente um aluno internalizará uma construção gramatical apresentada fora de contexto, visto que o indivíduo adota para si aquilo com que se identifica. Para que a dita norma culta seja aprendida, deve-se, ainda que hipoteticamente, conduzir o estudante a uma situação em que ela faça sentido.

Dessa forma, independentemente do contexto em que alguém fale ou escreva, o produto deve transmitir de forma clara e convincente aquilo que o gênio humano pensou. Além disso, a norma culta não deve ser um instrumento de opressão que discrimina pessoas. Conclui-se que professores devem conhecer o aluno; o que escreve, se escreve; para quem escreve; e ajudá-lo a fazer isso cada vez melhor, ajudando-o a incrementar o exercício de sua cidadania.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Análise do filme Garotas do Calendário, em conformidade com o texto “Antropologia e o estudo dos grupos sociais e das categorias de idade”

Antropologia e o estudo dos grupos sociais e das categorias de idade

O texto apresenta como as etapas da vida são vistas pelos agrupamentos humanos em diferentes períodos históricos, com foco na terceira idade. Nele pode-se ver que em certas sociedades, algumas das divisões tradicionais do desenvolvimento humano, como infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice, simplesmente não existem. O começo e o fim de cada uma dessas categorias de idade não são estipulados apenas por fatores biológicos, mas também por fatores históricos, políticos e sociais.

Na tentativa de apresentar os princípios organizadores do curso da vida, a autora apresenta os seguintes conceitos:

Idade Cronológica: Tempo contado cronologicamente a partir do nascimento do indivíduo. Sistema de datação importante para o exercício da cidadania nas sociedades ocidentais, visto que regula determinados direitos e obrigações, define papéis ocupacionais e serve como base para reivindicações sociais. É um instrumento de controle que o Estado tem para controlar diretamente a vida dos indivíduos, dividindo a vida em etapas como a idade em que se deve entrar para a escola, idade para o serviço militar obrigatório, para votar, para se aposentar, etc.

Idade Geracional: Independe da idade cronológica ou do nível de maturidade e pode ser vista de duas maneiras:

1. No âmbito familiar, representa a sucessão de um grupo por outro, estabelecendo as relações de parentesco;
2. No âmbito social, representa um grupo de indivíduos que compartilharam das mesmas experiências e possuem comportamento semelhante.

Nível de Maturidade: É a capacidade que um indivíduo tem de desenvolver determinadas atividades, está relacionado ao desenvolvimento intelectual. Não se leva em conta a idade cronológica ou a geracional. Por isso, indivíduos com a mesma idade cronológica podem apresentar diferentes níveis de maturidade, e o inverso também é possível.

Uma análise do filme Garotas do Calendário

Baseado em fatos reais, o filme Garotas do calendário retrata a história de duas amigas inseparáveis, Chris (Helen Mirren) e Annie (Julie Walters), moradoras de uma pequena cidade conservadora da Inglaterra. Chris é membro do Women's Institute, cujo lema é informação, diversão e amizade, uma associação nacional com reuniões mensais que desenvolve atividades para senhoras, como jardinagem, tricô ou a preparação de doces e bolos.

O marido de Annie morre de leucemia e ela resolve se juntar ao grupo, na tentativa de angariar fundos para ajudar o hospital da cidade. Chris desenvolve uma campanha que consiste em fazer um calendário com uma integrante do Women's Institute para cada mês, mostrando algo relacionado a suas habilidades domésticas. Essa ideia mexeu com a cidadezinha inglesa, visto que, segundo a proposta de Chris, as senhoras deveriam aparecer completamente nuas nas fotos.

Esse filme é uma boa fonte de discussão sobre idade cronológica, idade geracional e nível de maturidade. Por meio dele podem-se perceber expectativas e preconceitos que as sociedades têm em relação a mulheres com idade cronológica avançada.

Visto isso, é importante salientar que as expectativas e os preconceitos difundidos variam de acordo com a época e com o grupo social, em relação a homens e a mulheres, em relação à idade cronológica e em relação ao nível de maturidade dos indivíduos. Com base no texto Antropologia e o estudo dos grupos sociais e das categorias de idade, de Guita Grin Debret, serão analisados, minimamente, os fatores que causaram tamanha estranheza para os habitantes daquela pequena cidade.

Inicialmente, alguém poderia pensar que os moradores de Knapely, a cidadezinha em questão, achavam extremamente vulgar a atitude de uma mulher deixar-se fotografar nua para um calendário, mas ao longo do filme isso se modifica. De acordo com a tradição, o instituto fazia calendários com fotos de bolos. A ideia do calendário com fotos de senhoras nuas surgiu quando uma delas entrou em uma oficina e viu fotos de mulheres nuas nas paredes. Além disso, há uma cena em que uma das senhoras acha uma revista masculina que seu filho esconde em baixo da cama. Ou seja, a imagem de uma mulher nua na parede ou em uma revista, desde que seja uma desconhecida, não feria a moral da comunidade.

A idade das mulheres que se dispuseram a tirar as fotos também foi um fator decisivo para dar início ao preconceito e às especulações. Implicitamente, os padrões estéticos estipulam que somente mulheres jovens e com corpos esculturais podem tirar fotos nuas. Além disso, fotos nuas são associadas à sexualidade ativa, e a sociedade não aceita que mulheres mais velhas tenham esse comportamento. Entretanto, a proposta das fotos não era nada obscena. Assim, as pessoas perceberiam que as mulheres estavam nuas, mas nem os seios nem as genitálias ficariam à mostra.

Entende-se, com esse filme, que homens e mulheres são vistos diferentemente em relação à idade e às práticas sexuais. É socialmente admissível que um senhor tenha vida sexual ativa e se relacione com uma mulher com idade para ser sua filha, mas às mulheres não é outorgado esse direito. O preconceito traveste-se de preocupação e as poucas que tentam esse tipo de relacionamento são desestimuladas, principalmente pela família, sob o pretexto de que não existe amor verdadeiro por parte do homem mais novo, mas um interesse, geralmente, financeiro. Tal argumento não poderia ser utilizado no caso dos homens mais velhos?

Com o avanço da idade cronológica, uma pessoa pode, legalmente, ser impedida ou deixar de ser obrigada a praticar certos atos ligados à cidadania. Por força da lei, idosos precisam se aposentar com certa idade e são desobrigados de votar, por exemplo. Entretanto, há certas restrições implícitas que foram criadas por conceitos e preconceitos subjetivos em vigor nas diferentes sociedades. Na situação mostrada pelo filme, os moradores faziam parte de uma geração que acreditava na possibilidade de as fotos mancharem a moral das senhoras e que não tinham maturidade suficiente para entender o propósito do calendário e o tipo de fotos que seriam feitas.

Conclui-se este trabalho observando que no filme em questão pode-se perceber a forma como algumas senhoras de uma sociedade conservadora conseguiram superar as barreiras e vencer os preconceitos de sua comunidade. A idade cronológica e o nível de maturidade delas não foram suficientes para que seus concidadãos aceitassem com naturalidade sua decisão. A atitude delas pode ter sido um ponto de partida para a transformação das mentalidades daquele grupo, fazendo com que ele participasse dessa nova experiência, abalando os costumes daquela geração.

Bibliografia

DEBRET, Guita Grin. Antropologia e o estudo dos grupos sociais e das categorias de idade In: Velhice ou terceira idade?: estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. 2. ed. Editora FGV, Rio de Janeiro, 2000.

Ficha Técnica

CALENDAR GIRLS = Garotas do calendário. Direção: Nigel Cole. Elenco: Helen Mirren; John Alderton; Linda Bassett; Annette Crosbie; Philip Glenister; Ciarán Hinds; Celia Imrie; Geraldine James; Jay Leno; Julie Walters; Penelope Wilton. Inglaterra: Buena Vista International / Touchstone Pictures, 2003. 108 min., son., color.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quando será a hora de descer?

Estou começando a acreditar que minha memória não é tão ruim quanto pensava. Acabo de lembrar de um passeio que fiz com meus pais a Petrópolis. Long, long time ago. Foi um dia muito agradável, em que visitamos o Museu Imperial, o Palácio de Cristal e a Encantada, a Casa de Santos Dumont. Dizem que naquela cidade sempre faz frio, mas naquele dia a temperatura estava amena.

Na volta, entramos em um ônibus da extinta empresa Luxor, que iria pela dita estrada velha e não pela Rodovia Washington Luis. Nessa época os passageiros entravam pela porta de trás e o cobrador também ficava lá atrás do veículo. A porta se abria, o passageiro subia a escada e logo encontrava a roleta.

Pois bem, a viagem estava tranquila, até que dois passageiros fizeram sinal e entraram no ônibus. O primeiro deles passou a roleta, pagou a passagem e sentou-se. O outro não passou, ficou em pé na escada, entre a porta e a roleta.

Essa era uma atitude que logo chamava a atenção dos passageiros. Logo pensávamos que a pessoa não tinha o dinheiro da passagem, por isso estava esperando a melhor oportunidade para pedir ao cobrador para pular a roleta ou descer pela porta de trás. Ou..., na pior das hipóteses, poderia ser uma tentativa de assalto.

O milésimo sentido feminino fez com que minha mãe começasse a acompanhar os movimentos do passageiro suspeito, prestando atenção em cada detalhe. O que mais chamou sua atenção foi o fato de o homem estar com uma jaqueta pesada e fechada, apesar de o dia não estar tão frio e de já termos nos afastado consideravelmente de Petrópolis.

Como se não bastasse a desconfiança, eis que o motorista dá uma freada relativamente brusca, obrigando os passageiros a se segurarem, inclusive o não-pagante antes da roleta. Para isso, ele teve que esticar o braço e, sem querer, acabou deixando à mostra o que tanto queria esconder: uma pistola.

Além de não ter passado a roleta, não ter pagado a passagem, estar com um agasalho mais pesado que os demais e com uma pistola na cintura, o homem conversava em códigos com o amigo que estava sentado:

– Quando chegar o ponto, não esquece de mim. Me avisa a hora!
– Pode deixar que te dou um toque.

A essa altura, não era mais desconfiança, era quase certeza, o ônibus corria o risco de ser assaltado a qualquer momento.

Discretamente, minha mãe cochichou com meu pai:

– Alfredo, disfarça e coloca a carteira embaixo do banco. Este ônibus vai ser assaltado.

Provavelmente ele não ouviu nada do que foi dito antes em relação ao “disfarça”, logo ele que sempre falou em tom baixo. Para raiva de minha mãe, ele diz em plenos pulmões:

– É o quê?! O meu ninguém leva!
– Fala baixo, meu marido...

É claro que isso fez com que os supostos ladrões percebessem que algumas pessoas estavam desconfiando da atitude deles. Por isso, tentaram disfarçar e pararam de conversar, como se isso fosse fazer com que esquecêssemos a desconfiança.

Meu pai finalmente resolveu dar ouvidos à minha mãe. Disfarçou e colocou a carteira embaixo do banco. Nós estávamos sentados no último banco (era o único em que os três poderiam sentar juntos), por isso, hoje em dia, acredito que os suspeitos nem tenham visto a movimentação.

Minha mania de observar tudo que está ao meu redor já existia naquela época, mas não tinha desconfiado dos caras. Quando vi meu pai soltando sorrateiramente a carteira sob o banco, achei tudo muito estranho e soltei o verbo:

– Pai, sua carteira está debaixo do banco!

Minha mãe me olhou com olhar de reprovação. Ainda bem que ela não tinha veneno nos olhos, senão eu não escreveria esta história. Não entendi o olhar de censura. Sempre ouvi que a família deveria ser unida, que um deveria se preocupar com os problemas dos outros e tentar resolvê-los, etc. Não ficaria com a consciência tranquila se chegássemos a casa e meu pai descobrisse que tinha perdido sua carteira. Por achar que não tinha sido compreendido, enfatizei:

– Pai, depois não vai dizer que não presto atenção em nada. Sua carteira está debaixo do banco e você não viu...

Mais que depressa minha mãe interveio:

– FICA QUIETO, NÃO ESTÁ VENDO QUE O ÔNIBUS VAI SER ASSALTADO?!

Arregalei os olhos e fiquei surpreso. Os outros passageiros fizeram o mesmo e começaram a se perguntar:

– O ônibus vai ser assaltado?!
– Quem vai assaltar o ônibus?
– Tem ladrão aqui???

Os caras não sabiam onde enfiar a cara. Tinha chegado a hora de anunciar o assalto ou desistir de vez e fingir que essa nunca tinha sido a intenção deles.

Começou um tumulto dentro da condução, e o suspeito que estava sentado se levantou. Quando ele olhou para o colega, viu lá fora uma joaninha com dois policiais. Naquela época o Fusca era um dos carros utilizados pela Polícia Militar. Este era a joaninha. Não parecia que os PMs estivessem à procura destes caras especificamente, mas a presença deles amedrontou os passageiros suspeitos.

Assim que teve oportunidade, o suspeito que pagou a passagem puxou a cigarra e desceu. O cobrador, por medo de que algo acontecesse, pediu que o motorista abrisse a porta de trás. Com isso, o segundo suspeito desceu e saiu correndo ao encontro de seu amigo.

Os demais passageiros se sentiram aliviados e começaram a trocar impressões sobre o ocorrido. Meus pais finalmente me explicaram o que tinha acontecido e o porquê de colocar a carteira sob o banco.

No final desse dia aprendi algumas coisas:
Primeiro: Devo desconfiar de pessoas com roupas pesadas e fechadas em dias de calor;
Segundo: Devo estar atento ao que acontece no ambiente e entender as sutilezas da linguagem não-verbal; e
Terceiro: Não devo contar com ninguém para saber a hora de descer. O passageiro suspeito não avisou seu amigo...

sábado, 13 de novembro de 2010

A retórica em "O Alienista", de Machado de Assis

1. INTRODUÇÃO

Desde a Antiguidade, acreditava-se que a argumentação bem fundamentada tem o poder de fazer com que o indivíduo que a domina tenha êxito em seus intentos. Além de conseguir o que deseja, caso consiga convencer o próximo, o indivíduo que domina a arte da retórica dificilmente será ludibriado por falácias e palavras vãs. Em suma, o discurso persuasivo pode manipular pessoas, mas também pode ser um importante instrumento de comunicação. Nesse período histórico, criaram-se tradições de estudo a respeito de técnicas retóricas.

Cícero afirmava que existiam três modos de persuadir, a conhecida Tria Officia, que consistia em convencer, por meio da lógica; comover, por meio da emoção; e agradar, por meio da estética. Antes do citado senador romano, os sofistas, mestres gregos itinerantes, se notabilizaram pelo ensino da oratória persuasiva. Por esse motivo, foram duramente criticados por Platão, que via neles falta de compromisso com a ética, verdade ou justiça em troca do dinheiro.

Entretanto, estudos arqueológicos e filosóficos demonstram que Platão menosprezou a preciosidade técnica da persuasão. Por sua vez, Aristóteles, seu discípulo, sistematizou em sua Arte Retórica fatores com os quais se deveria influenciar o público, a saber: o êthos, que diz respeito ao caráter e à credibilidade do orador; o páthos, relacionado aos apelos da emoção; e o lógos, pertinente à construção do argumento com base na razão e na lógica.

Um argumento consistente deve ser bem fundamentado, apresentar provas, se não verdadeiras, ao menos convincentes. Para que seja consistente, devem-se levar em conta os interlocutores. Caso contrário, o locutor pode ser rejeitado pela plateia, se tentar impor sua opinião. Por isso é importante conduzir o público gradativamente, por meio da lógica, até que se alcance o entendimento comum.

Espera-se definir minimamente os conceitos relacionados à retórica e analisar como ela se aplica em O Alienista, protagonizado por Simão Bacamarte, do qual se analisará, basicamente, o êthos, o páthos e o lógos. Considerando a brevidade deste trabalho, apenas o primeiro capítulo do conto será utilizado para a seleção exemplos.


2. O QUE É RETÓRICA?

Retórica – parte do trivium ensinado em faculdades da Idade Média, que consistia em gramática, dialética e retórica – é a arte ou técnica de convencimento por meio da oratória e outros meios de comunicação, inclusive, não-verbais, que se instalou na cultura grega como disciplina essencial e depois na romana (REBOUL, 2004, p. 71).

Dessa forma, a oratória é um dos campos de atuação da retórica, visto que ela também pode manifestar-se por meio das artes plásticas, da música, etc. A retórica tenta fazer com que o interlocutor se convença de que o emissor está certo, por meio de seu próprio raciocínio. Assim, o objetivo da retórica é dar ferramentas ao interlocutor para que este consiga julgar se o que foi dito é verdade ou não.

Considerando tratar-se de uma técnica, há comportamentos que devem ser observados: a identificação do público, inclusive de seus valores, comportamentos e anseios; a formulação de uma tese que delimite os resultados desejados; a utilização de linguagem clara, que se identifique com a plateia; a seleção de argumentos baseados na lógica que reforcem e sejam coerentes com a tese a ser defendida; a conscientização de que, para o sucesso de uma argumentação, há importantes fatores extralinguísticos que se devem considerar, como escolha de roupas adequadas, ilustrações, impostação da voz e tudo aquilo que for útil para atrair a atenção do público (REBOUL, op. cit., pp. 195 e 246).

Apesar de se conhecerem as técnicas da retórica, a eloquência – capacidade de falar e expressar-se com desenvoltura – segundo Cícero, não tem a ver com receitas:

[...] se ela é autêntica, ocorre naturalmente no orador, desde que ele seja dotado, experiente e culto, ou seja, instruído em todas as áreas essenciais: direito, filosofia, história, ciências. As receitas retóricas, os “truques” para se impor são ineficazes (REBOUL, op. cit., p. 72).

Assim, a autenticidade do orador, associada às técnicas retóricas podem atingir melhores resultados em um discurso. A seguir, será vista uma breve apresentação do conto O Alienista, seguida de breve análise do comportamento de Simão Bacamarte, o protagonista, no desenrolar da história.


2.1 O Alienista

O Alienista é um conto representativo da produção realista de Machado de Assis, especialmente no que se refere à crítica social e à análise psicológica. A sátira que se emprega nessa obra mistura, confunde e desfaz os limites entre razão e loucura. Nela se vê a personalidade dos indivíduos influenciada por fatores sociais e a sociedade influenciada por fatores psicológicos. Dessa forma, nota-se que Itaguaí, cidade em que a história acontece, e seus moradores representam toda a civilização. Em seguida, será feita uma apresentação concisa do protagonista dessa trama.

2.2 Simão Bacamarte

Simão Bacamarte, médico diplomado em Portugal, escolheu Itaguaí, no Rio de Janeiro, para criar um hospício e estudar a fronteira entre razão e loucura. Analisava a saúde psicológica dos moradores de sua cidade e o grau de influência dela nas relações sociais. Suas análises tinham metodologia científica próprias dele, o qual muitas vezes mudou seus critérios de avaliação.

Apesar disso, ele tinha o apoio estatal para tudo o que fazia e ganhou um auxílio da Câmara de Vereadores por cada internação durante muito tempo. As primeiras indicações de internação foram apoiadas pela sociedade itaguaiense, visto que eram pessoas consideradas loucas por todos. Porém, como o passar do tempo, a população começou a questionar as decisões de Simão Bacamarte, que passou a ser visto como um déspota traiçoeiro que lucrava com o aumento do número de internações. Com o tempo, essa ideia foi descartada, pois o médico abriu mão do valor que recebia por cada louco internado.

Depois de inúmeras teorias, após ver 75% dos moradores aprisionados em seu hospício, o médico mudou mais uma vez seus critérios. Mandou soltá-los e considerou loucos apenas aqueles que mantiveram sua personalidade reta ao longo do tempo. Ao ver que este seu último critério era falho e que ele próprio era o único que se manteve “íntegro” até o fim, soltou todos os loucos da Casa Verde e encerrou-se lá até seu último dia.

2.2.1 Êthos

Em relação ao caráter e à credibilidade de Simão Bacamarte, pode-se dizer que era o maior médico do Brasil, de Portugal e das Espanhas, bem formado, reconhecido pelos conterrâneos itaguaienses e, inclusive, pelo rei de Portugal, que tentou convencê-lo a ficar lá, cuidando dos interesses da monarquia. Para ele, a ciência estava acima dos bens materiais ou dos prazeres. “A Ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo” (ASSIS, 2004, p.11). A integridade do médico e seu visível compromisso com a Ciência garantiram, no começo da história, a adesão da população e dos vereadores à criação da Casa Verde, a casa de loucos.

2.2.2 Páthos

Apesar da competência e da confiança que despertava nos cidadãos de Itaguaí, em alguns momentos, usava de sua astúcia para justificar suas decisões, com atitudes que mexiam com a emoção dos ouvintes. Certa vez, para ocultar sua predileção por textos árabes e evitar o choque de ideias com os princípios religiosos do padre Lopes, atribuiu uma inscrição do Alcorão, gravada na fachada de seu hospício, a Benedito VIII. O padre, por desconhecimento, falsa erudição ou fé em demasia, contou histórias sobre a vida daquele eminente pontífice e não percebeu a pia fraude (ASSIS, op. cit., p. 14). A saída encontrada por Bacamarte mexeu com a emoção do padre, visto que este dificilmente seria contra uma citação de um papa.

2.2.3 Lógos

A razão e a lógica permeavam o discurso do médico e o afastavam do sentimentalismo. A escolha de sua esposa, por exemplo, obedeceu a critérios lógicos baseados na ciência e não na afetividade. “[...] Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista [...]” (ASSIS, op. cit., pp. 11,12). Considerando que sua intenção era perpetuar a dinastia dos Bacamartes, aquela seria a mulher ideal para dar-lhe filhos.

Além disso, como os loucos de Itaguaí não recebiam tratamento adequado e a Câmara de Vereadores não fazia nada para ajudá-los, Bacamarte viu a oportunidade de que precisava. Pediu à Câmara para abrigar e tratar no prédio que construiria todos os loucos de sua cidade e das vizinhanças, mediante um valor que a Câmara lhe daria, caso a família não pudesse fazer.

Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres (ASSIS, op. cit., p. 13).

Os argumentos apresentados pelo médico foram ao encontro das necessidades dos cidadãos. Baseado na razão e na lógica, conseguiu apoio estatal para a construção daquela que seria seu laboratório pessoal para o estudo da lucidez e da loucura, a Casa Verde.

3. CONCLUSÃO

A retórica vem sendo desenvolvida, ensinada e aprendida ao longo dos anos em diversos ambientes, com diversas finalidades. Entretanto, sempre relacionada à tentativa de convencer o leitor ou ouvinte de algo que beneficie os interesses do orador ou da coletividade.

Atualmente a retórica não é mais tão associada à produção de discursos, mas à interpretação deles, associando-se, assim, à gramática dos antigos. O ensino das técnicas para se fazer um discurso tem sido identificado com a formação literária e filosófica, deixando de ser vista como retórica. Ela não se limita mais aos três gêneros oratórios da Antiguidade, mas anexa discursos persuasivos modernos, criando, dessa forma, retóricas específicas, como a cinematográfica, a musical e a publicitária, dentre outras (REBOUL, op. cit., p. 82).

É importante observar que, apesar do uso indiscriminado dos dois termos, convencer e persuadir têm sentidos próximos, mas não iguais. O primeiro envolve o público com argumentos lógicos, por meio da indução e da dedução; o segundo, apela para a emoção da plateia quando seleciona e apresenta argumentos.

Simão Bacamarte soube utilizar elementos da retórica para concluir seu plano de construir um hospício e estudar a loucura em sua cidade. Provavelmente, sua cultura trazida da Europa o ajudou na tarefa de persuadir e convencer toda a cidade de que suas ideias faziam algum sentido, pelo menos no começo. A boa argumentação do médico fui um dos materiais que construíram a Casa Verde.

Este trabalho não esgota os temas relacionados à retórica, tampouco dá conta de toda a subjetividade do conto analisado. Entretanto, espera-se que tenham sido minimamente apresentados ao leitor e exemplificados com textos retirados de O Alienista, uma das obras machadianas que, apesar de publicada há mais de 120 anos, continua despertando o interesse dos leitores, levando-os à reflexão sobre o que seria loucura.


4. BIBLIOGRAFIA

ASSIS, Machado de. O Alienista. São Paulo: Martin Claret, 2004.

DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001.

ESTEVÃO, Roberto da Freiria. Retórica e Direito : A importância jusfilosófica da argumentação retórica. 2007. 219 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Centro Universitário Eurípedes de Marília, Marília, SP, 2007. Disponível em: http://www.fundanet.br/servico/aplicativos/mestrado_dir/dissertacoes/Ret%C3%B3rica_e_direito_-_a_import%C3%A2ncia_jusfilos%C3%B3fica_da_argume_1103_pt.pdf. Acesso em: 29 out. 2010.

GUERREIRO, Carmen. A atração pelo argumento. Revista Língua Portuguesa. Edição 60. São Paulo: Editora Segmento, 2010. Disponível em: Acesso em: 25 out. 2010.

LIMA, Luiz Costa. O palimpsesto de Itaguaí. In: Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. Tradução de Ivone Castilho. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2004.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Do apiedar-se

Apiedei-me de vós quando pensastes que estaríeis mais seguros se vos cercásseis de confederados. Vosso pelotão foi preparado para guerrear contra qualquer um que se pusesse à frente. E para isso não poupastes ninguém. Mentiras foram implantadas, mentes foram convencidas. Transformastes o bem em mal e carreiras foram destruídas.

Se quisésseis que os antigos combatentes mudassem as estratégias aplicadas, simplesmente os teríeis orientado melhor. Mas vosso objetivo era outro. Ampliar vossa área de atuação e conquistar outros territórios foi vossa meta. Destes ordem e um rolo compressor passou por cima dos que foram indiferentes a vosso ineficaz comando. Para cada baixa, uma substituição a vosso bel-prazer.

Convocastes soldados que estivessem dispostos a acatar vosso controle e participar de cada batalha vossa. O tempo se passou e os novos combatentes não mostram a que vieram, tampouco tivestes competência para guiá-los pelo melhor caminho. O desinteresse pela vossa causa surpreendeu-vos, mas isso não é incomum. A vida costuma surpreender os distraídos.

A expressão de humanidade que há em vós se configura pela sucessão de estratégias equivocadas que criais. Em nada causais inveja aos que têm uma visão ampla e colocam em prática as táticas que o supremo comandante ensinou. Apiedo-me de vós, que fazeis questão de caminhar sem saber que caminhais em círculos. E a guerra continua...

sábado, 30 de outubro de 2010

Breve reflexão sobre a Ética do Discurso

A ética do discurso surgiu no final dos anos 1960, apresentando a ideia de que a linguagem é a base das normas morais. A verdade, portanto, deixaria de ser a relação entre o mundo real e o que é dito e passaria a ser vista como algo consensual.

Dessa forma, um predicado passa a ser adequado ao sujeito se todos os envolvidos no discurso assim o quiserem, abrindo espaço para exceções, desde que racionalmente justificadas. Insere-se aqui a necessidade de coerência em um conjunto de crenças para que algo seja considerado verdadeiro.

O conceito de ética depende da sociedade em que se viva. Visto isto, basear a ética em conceitos puramente políticos, econômicos ou religiosos tende ao insucesso, pois o que é positivo e esperado em um grupo pode não ser em outro.

A linguagem, de certa forma, faz o homem, por isso o discurso em si é o que iguala as diversas sociedades “criadas” por diferentes linguagens, podendo criar juízos universais.

Entretanto, nem sempre se quer alcançar a verdade por meio da linguagem, pelo contrário, há momentos em que esta é usada para ocultar ou manipular aquela. Haja vista as técnicas de oratória, aprendidas e ensinadas há tantos séculos, em que o orador aprende a conquistar e prender a atenção da plateia, ainda que para isso precise mentir ou deformar a verdade.

Partindo do pressuposto de que tudo o que é dito tem alguma relação com alguma ação, nota-se que quando um réu ou seu advogado mentem diante de um juiz, o uso estratégico de sua linguagem visa à absolvição, mas também pode resultar em condenação, caso se percebam inconsistências.

Nesse tipo de situação, a linguagem não tem compromisso, necessariamente, com a verdade, mas com o convencimento dos ouvintes e com a verossimilhança. Por ser possível, algo pode ser tomado como verdade, quando um corpo de jurados inocenta alguém, por exemplo.

Conhecer estratégias textuais da língua e aplicá-las às necessidades específicas de situações do cotidiano é fundamental para que se consiga convencer o ouvinte ou leitor, tendo um discurso ético como base.